Silveira Neto - Antífona

 

ANTÍFONA

 

Noite de inverno e o céu ardente de astros,

Com a alma transfigurada na Tortura,

Olhava estrelas, eu, crendo-as, em nastros,

Almas cristalizadas pela Altura.

 

Frio da noite é o pólo em que o uivo escuto

Do urso branco do Tédio, em brumas densas;

É bar glaciário que nos vem do luto

Da avalanche de todas as descrenças.

 

A noite é como um coração enfermo;

Rito de almas de maldições cobertas.

Alma que perde a fé muda-se em ermo,

Ermo de tumbas pela vida abertas.

 

Esse "réquiem" da Cor pelo ar disperso

Como que encerra, num delírio infindo,

Todo o soluço extremo do Universo,

Num concerto de lágrimas subindo.

É cenário do Fim que atroz se eleva

Desde que ao Nada o coração se acoite;

Pois, como o dia cede o espaço à treva,

Fecha-se a Vida nos portais da noite.

 

Se vem a noite num luar acesa,

Lembra uma cruz coberta de boninas;

A luz da lua é triste, — que a tristeza

É o sagrado perfume das ruínas.

 

É uma prece o luar, prece perdida

Por noite afora, em lívida cadência,

Como cada sorriso em nossa vida

Planta a cruz da saudade na existência.

 

Era de estrelas um enorme alvearco

A cúpula celeste escura e goiva;

E a Via-Láctea se estendia em arco,

Branca e rendada como um véu de noiva.

 

Depois gelada abrira-se, e na extrema

Nevrose eu vi formarem-se, de tantos

Astros, as duas páginas de um poema

Em que eram cor de lágrimas os cantos.

 

Cantavam as estrelas. Coros almos

O espaço enchiam de um rumor contrito

E histérico, a fundir astros em salmos,

Parecia rezar todo o Infinito.

 

No êxtase que os páramos outorgam

Aos visionários, eu surpreso via

Que, céus afora, como a voz de um órgão,

A salmodia d'astros prosseguia.

 

Erma de risos e de majestades.

Porque as estrelas são os magnos portos

Onde ancorou com todas as saudades

A dor de tantos séculos já mortos.

 

Desde Valmiki e Homero — esses profetas —

As intangíveis amplidões cerúleas

Ouvem, sangrando, a queixa dos Poetas,

Como um cibório de canções e dúlias.

 

Ermas de tudo que não fosse a mágoa,

As estrelas formavam o Saltério

Num brilho aflito de olhos rasos de água ...

E pelo espanto entrei nesse mistério:

 

Eis que um Visionário do Supremo Ideal,

ansioso de Azul e de infinito,

(Da ânsia de Azul que teve o Anjo Maldito

Após o castigo extremo)

 

E fatigado do torvo mundo espalto,

Onde a alma se nos vai muito de rastros,

Pôs-se a evocar a Paz Eterna do Alto;

Falou-lhe então a música dos astros:

 

Luar de inverno e outros poemas (1901) - Silveira Neto